Entre as inúmeras anomalias que a Floresta Amazônica oferece a quem insiste em medi-la com instrumentos padronizados, poucas são tão desconcertantes quanto as Casas Vivas. O nome, usado por viajantes e por relatórios oficiais, carrega certa simplicidade, mas o fenômeno que ele tenta conter não se deixa reduzir.
Avistadas especialmente em Amazara, as Casas Vivas não são construções incomuns. Diz-se que a primeira visão de uma delas nunca se parece com a segunda.
À distância, pode ser confundida com um aclive de raízes, uma elevação de troncos antigos ou um amontoado de vegetação que a mata engoliu há tempo. E é aí que mora o equívoco, uma vez que, mesmo que o viajante imagine ruína, a Casa Viva está ali por escolha.
Os registros mais confiáveis descrevem uma estrutura de grande porte, por vezes comparada a uma árvore monumental, por vezes a um conglomerado de cipós e cascas entrelaçadas, capaz de abrigar dezenas de indivíduos, geralmente ligados por múltiplos laços familiares.
A vida kaipora, muito mais coletiva do que as tradições urbanas de Rio de Prata costumam admitir, encontra nessas moradas uma forma perfeita, por meio de um organismo comunitário, uma extensão do próprio clã. Há Casas Vivas que acolhem uma família extensa, mas também há aquelas que, especialmente em épocas de risco ou deslocamento, reúnem mais de um núcleo.
Por dentro, segundo relatos de poucos estrangeiros que tiveram permissão de entrar (e dos ainda mais raros que saíram sem a sensação de ter sonhado), a Casa Viva não se organiza como uma casa tradicional. Não há ângulos retos, não há linhas de corredor que se repitam com a mesma medida.
O espaço é orgânico, e por vezes parece responder ao humor dos que o habitam. Dessa forma, um compartimento que ontem era passagem pode hoje se tornar alcova. Um recanto que parecia estreito pode ceder, como se a fibra vegetal compreendesse a necessidade de mais espaço. Alguns também dizem que as paredes respiram e que elas escutam.

A parte mais comentada (e, por isso mesmo, mais suspeita) é o fato de a Casa Viva manter um estoque limitado de água pura e alimento vegetal. Nesses casos, o líquido brota de nós internos, acumulada em cavidades como bacias naturais. Há também folhas comestíveis que surgem de ramos ocultos, além de ervas e pequenas hortaliças que parecem maduras sempre na hora certa. E, como era de se esperar, esse fornecimento se torna mais generoso quando a Casa Viva permanece próxima de rios, igarapés ou áreas encharcadas.
Todos esses fatos já seriam suficientes para provocar expedições e obsessões acadêmicas, mas as Casas Vivas guardam o que realmente humilha a ciência imperial: elas se locomovem.
Não se movem como uma carroça, nem como uma máquina. Não deixam trilhas claras, como um veículo pesado deixaria.
A Casa Viva desloca-se como um animal, por meio de “pernas” formadas por raízes grossas, que se movem lentamente em um arraste contínuo, como se toda a estrutura escorregasse milímetro a milímetro. Um guarda florestal de Amazara, em depoimento registrado e depois convenientemente arquivado, comparou o movimento a “um bicho grande demais para existir, andando devagar o bastante para não ser notado”.
Sabe-se que podem galgar grandes distâncias em um único dia e sabe-se, também, que podem percorrer centenas de quilômetros antes de parar. O problema é que, quando se tenta calcular esses números, nunca é possível chegar a um consenso. E os kaiporas não revelam medidas exatas, e raramente confirmam qualquer estimativa feita por estrangeiros.
E então chegamos ao ponto onde os relatórios costumam estancar, porque a linguagem do Império não sabe avançar: como se faz uma Casa Viva?
Outro grande mistério é se elas são objetos criados pelos kaiporas ou algum tipo de criatura natural, modificada e domesticada por eles. Ainda assim, existe um consenso incômodo: há muita magia envolvida.
O que sustenta uma Casa Viva parece antigo e visceral, que mistura a Molda, a manipulação elementar que apenas os kaiporas dominam, com camadas de Encanto e técnicas que os arcanistas chamariam de impossíveis… se não estivessem diante de uma impossibilidade andando.
Muitos magos da Academia Aruanan de Feitiçaria e Magia Arcana já tentaram replicar o feito, mas falharam de maneira espetacular. Já foram registradas experiências com madeira encantada, árvores semi-sencientes, agnos “caminhantes” domesticados, estruturas de barro animado e até engenhos élficos disfarçados de vegetação. Tudo ruiu, apodreceu, enlouqueceu ou moveu-se sem obedecer a ninguém.
Dessa forma, não há consenso nem entre os magos e intelectuais do Império. Alguns dizem que as Casas Vivas nascem de alguma semente que não existe no catálogo biológico do Império. Há também quem sustente que é preciso negociar com a própria floresta. Nenhuma dessas versões, entretanto, pode ser provada.
Os kaiporas, por sua vez, nunca revelaram o segredo. Para eles, a Casa Viva é uma tecnologia-ritual que impede a captura, como parte do que os mantém como povo. Eles vivem em uma cidade que não pode ser sitiada porque não se deixa cercar. Um lar que não pode ser confiscado porque não está onde se acredita que esteja.
Principais avistamentos
Ainda assim, houve situações que romperam o isolamento simbólico desse fenômeno e fizeram as elites urbanas engolirem a própria descrença. Em duas ocasiões, uma Casa Viva foi vista no interior do Parque Ibirapuera, em São Paulo, na nação de Rio de Prata. A primeira aparição foi tratada como delírio coletivo, mas a segunda forçou o Império a abrir inquéritos, porque não era mais possível fingir que se tratava de boato.
As descrições dessas aparições são sempre estranhas: as pessoas experienciam a sensação de que as árvores do parque ficaram mais densas e um silêncio excessivo se espalha. O canto dos pássaros somem e então, entre as alamedas, uma massa vegetal gigantes emerge das sombras.
Em Amazara, dizem que quem tenta segui-la sem permissão começa a caminhar em círculos, uma vez que a mata se rearranja para impedir a captura. Buscas extensas não encontraram a localização da habitação e nenhum rastro consistente, nenhuma marca de arraste e nenhum vestígio que a perícia imperial pudesse usar para entender aquele contexto. A Casa Viva, ao que tudo indica, ou se esconde muito bem, ou já partiu daquela região.
