Com a derrota do mago Arcthrus Endülliun e o colapso de seus exércitos, Terra Brasilis experimentou um breve intervalo de alívio que muitos cronistas descrevem como enganoso. As cidades começavam a ser reconstruídas, rotas comerciais improvisadas voltavam a funcionar e as lideranças locais tentavam reorganizar populações inteiras deslocadas por décadas de guerra.
Ainda assim, sob essa aparência de retomada, o continente encontrava-se politicamente fragmentado, exausto e vulnerável.
A Coalizão, restaurada após a expulsão definitiva dos orcades, não possuía estrutura administrativa clara. Funcionava como um pacto de emergência, sustentado mais pela memória recente da destruição do que por instituições duráveis.
Suas decisões dependiam de assembleias esporádicas, alianças pessoais e compromissos orais que variavam conforme a região e o povo envolvido. Para os padrões internos de Terra Brasilis, esse arranjo era suficiente. Para o restante do mundo, porém, tratava-se de uma anomalia.
Foi nesse contexto que os Altos Elfos apresentaram sua proposta. Diferentemente dos demais povos, eles mantinham contato regular com outros continentes e compreendiam profundamente as exigências diplomáticas, comerciais e militares do cenário global.
Segundo seus emissários, Terra Brasilis não possuía uma organização política formal que pudesse ser reconhecida como legítima fora de suas fronteiras. Sem tratados claros, sem um governo centralizado e sem uma autoridade última, o continente continuaria a ser visto como território instável e, portanto, alvo legítimo de futuras invasões.
O argumento era simples, mas contundente. A ausência de um Estado reconhecível não era apenas um problema administrativo, mas uma ameaça existencial. Para os Altos Elfos, a vitória militar contra os orcades não garantiria paz duradoura se não fosse acompanhada de uma transformação estrutural. Era necessário substituir pactos circunstanciais por instituições permanentes, lideranças temporárias por cargos definidos e alianças informais por leis codificadas.
Humanos e kaiporas, ainda imbuídos de orgulho pelas vitórias recentes e cientes de sua fragilidade frente ao mundo exterior, mostraram-se receptivos à proposta. Muitos líderes humanos, em especial, viam na centralização política uma oportunidade de estabilizar rotas comerciais, padronizar tributos e fortalecer defesas.
Já os curupiras reagiram com desconfiança. Para eles, a proposta soava menos como proteção e mais como dominação disfarçada, sobretudo por partir de um povo recém-chegado ao centro do poder continental.
Apesar das resistências, os Altos Elfos insistiram. Apresentaram modelos de governo inspirados em nações européias, sistemas de representação indireta e estruturas administrativas capazes de sobreviver à morte de seus líderes.
Defenderam também a criação de um cargo supremo que funcionasse como árbitro final em disputas internas e como rosto oficial do continente perante o exterior. Esse cargo, argumentavam, não deveria pertencer a um povo específico, mas a um membro dos Povos Livres capaz de transitar entre culturas e interesses.
A proposta culminou na convocação de uma grande conferência continental, realizada em São Paulo de Piratininga, um povoado que já despontava como centro político e logístico, ao mesmo tempo em que, aos poucos estava se convertendo em uma grande metrópole multiétnica e multicultural.
Representantes de humanos, elfos, kaiporas, curupiras, sacires, anões e outras raças influentes reuniram-se para discutir o futuro institucional de Terra Brasilis. O clima era tenso, uma vez que as memórias da guerra ainda estavam vivas, e a desconfiança mútua permeava cada debate.
Pouco antes da conferência, o assassinato do líder curupira Zirka Tulla, filho de Amak III, abalou ainda mais o processo. As circunstâncias nunca foram plenamente esclarecidas e as suspeitas recairam sobre os sacires, com que os curupiras já tinham certo desafeto.
O fato, porém, é que o evento reforçou o discurso élfico de que a instabilidade política precisava ser contida por estruturas mais rígidas. Para muitos observadores da época, a morte funcionou como um ponto de inflexão silencioso, reduzindo a capacidade de oposição organizada.
Mas, a despeito da tensão, a conferência foi realizada e ao final das deliberações, a proposta alto-élfica prevaleceu. Decidiu-se pela criação de um governo centralizado, capaz de unificar juridicamente o continente sem eliminar completamente as autonomias regionais. Nascia ali o projeto do Império Brasiliano. A Coalizão não seria dissolvida, mas transformada em base institucional do novo regime, agora dotado de hierarquia clara, legislação comum e reconhecimento externo.
O próprio nome Terra Brasilis, que já era usado há algum tempo, foi oficializado nesta reunião, uma vez que o continente possuía várias denominações entre as tribos. O termo vem de “brasil”, palavra que remete à “brasa” e também à cor vermelha. Também é o nome de uma árvore muito importante para os nativos.
A escolha de um Imperador Interino foi apresentada como medida transitória, necessária para garantir continuidade administrativa enquanto se estruturavam mecanismos de sucessão e governança. E a nomeação de Caedhro Tardhasi, um Alto Elfo, para esse cargo foi defendida como decisão pragmática, uma vez que tratava-se do povo com maior experiência diplomática internacional e com menor risco imediato de fragmentação interna.
Ainda assim, a decisão gerou ressentimentos que jamais seriam plenamente resolvidos. Os curupiras, especialmente, não firam satisfeitos com os resultados da votação, uma vez que esperavam que o Imperador fosse alguém do povo originário do continente, mas aceitaram a decisão.
Com o nascimento do Império, Terra Brasilis passou a existir, pela primeira vez, como entidade política formal aos olhos do mundo. Tratados começaram a ser assinados, embaixadas foram estabelecidas e o continente deixou de ser visto apenas como território exótico ou zona de conflito.
No entanto, essa modernização teve um custo elevado. A centralização do poder redefiniu hierarquias raciais, institucionalizou exclusões e lançou as bases para legislações futuras que aprofundariam desigualdades.

A Coalização Imperial
Para organizar o novo regime de uma maneira mais eficiente, a antiga Coalizão, até então um pacto militar e diplomático de sobrevivência, foi reformulada em um organismo político permanente: a Coalização pelo Império Brasiliano. Sua função deixou de ser emergencial e passou a ser estrutural.
A Coalização tornou-se o eixo de governança do continente, responsável por articular interesses regionais, validar decisões imperiais e conferir uma aparência de representatividade ao novo regime centralizado.
Na prática, a Coalização Imperial operava como uma federação controlada. As nove grandes nações de Terra Brasilis receberam autonomia administrativa limitada, podendo legislar sobre questões locais desde que não entrassem em conflito com os decretos imperiais. Essa descentralização calculada permitiu ao Império governar um território vasto e culturalmente diverso sem recorrer à ocupação militar constante, transferindo parte da responsabilidade do controle para elites regionais alinhadas ao centro do poder.
Dessa forma, Terra Brasilis passou a ter um Imperador, que possuía um poder superior a todos os outros governantes, e uma série de Presidentes, que governavam suas próprias nações. Os Altos Elfos receberam Flordouro, uma gigantesca faixa de terra na região central do continente, onde fundaram várias cidades. Boa parte daquela região pertencia aos curupiras, que aceitaram cedê-la em troca de uma promessa de paz.
Os anões, que já viviam em paz nas regiões ao sul do continente também foram convidados a participar do Império. Eles impuseram suas condições e, para evitar novos conflitos e todos acataram. Assim surgiu Naruza’gûl, ou Forjafirme, na língua comum, um reino oculto nas Cordilheira dos Andes. E, dessa maneira, a Coalizão sobrepujou todas as outras organizações políticas que já existiam e arregimentou a união entre as principais que vivam no continente.

Povos Livres, Peregrinos e Degredados
Com o tempo, muitas mudanças organizacionais ocorreram. Uma nova e extensa guerra se iniciou, mas dessa vez não havia um invasor. Os inimigos eram os próprios curupiras, que requisitavam melhores condições dentro do Império.
A guerra terminou com a vitória do Império e com os curupiras sendo retirados da elite governante, sendo condenados ao Degredo.
A guerra ampliou a atuação do Império, que instituiu a classificação jurídica das raças inteligentes do continente em três categorias distintas: Povos Livres, Peregrinos e Degredados. Ainda hoje, este é um dos pilares mais controversos do regime, uma vez que essa divisão não apenas organizava direitos e deveres, mas redefine o próprio conceito de cidadania em Terra Brasilis.
- Para saber mais sobre a Guerra do Degredo e o banimento dos curupiras, clique aqui.
Os Povos Livres passaram a ser reconhecidos como sujeitos plenos da lei imperial. São considerados cidadãos, com direito à propriedade, à mobilidade territorial e à participação indireta na vida política. Essa categoria inclue raças vistas como essenciais à estabilidade do Império, seja por sua força demográfica, capacidade produtiva, conhecimento técnico ou utilidade estratégica.
Vale destacar também que a designação de Povo Livre não é apenas jurídica, mas também simbólica: significa pertencimento ao projeto imperial. As atuais raças que ocupam o posto de povos livres são: homens, elfos, anões, kaiporas, sacires, boiunas e akuras.
Os Peregrinos, por sua vez, ocupavam uma posição ambígua. São povos oriundos de outros continentes, aceitos em Terra Brasilis por conveniência econômica, cultural ou diplomática. Embora possam acumular riqueza, influência e até prestígio social, jamais alcançam cidadania plena.
Seus direitos são condicionais e revogáveis, sempre subordinados à vontade do Império. Essa condição os torna úteis e descartáveis em igual medida. Em sua grande maioria, são grandes empresários, políticos ou artistas. Os elfos já foram chamados de peregrinos, mas, oficialmente, são um povo livre.
Já os Degredados representam a face mais violenta e explícita da ordem vigente. São raças e povos inteiros privados de direitos civis, mesmo quando nativos do continente. O Degredo nunca foi apresentado como punição temporária, mas como estado permanente e hereditário. Estão condenados a viver suas vidas em campos de trabalho forçado e em subempregos em redutos agrícolas.
Segundo a doutrina imperial, trata-se de uma condição necessária para preservar a “pureza”, a estabilidade e a segurança de Terra Brasilis. Na prática, o Degredo institucionalizou a exclusão, legitimando a escravidão e a vigilância constante sobre populações inteiras.
A organização política
A sustentação desse sistema exige uma estrutura política clara e hierarquizada. No topo encontra-se o Imperador, líder supremo do Império Brasiliano e última instância de poder legal. Abaixo dele operava o Alto Conselho Imperial, composto por representantes das Nove Nações e por membros das grandes famílias alto-élficas. O consenso geral, porém, aponta que o Conselho tem o poder real, uma vez que pode vetar decisões, influenciar sucessões e, em casos extremos, destituir o próprio Imperador.

A figura do Primeiro-Ministro Imperial, muitas vezes chamada informalmente de vice-Imperador, funciona como mediador entre o Conselho e o trono. Seu mandato é limitado e rotativo, sempre apresentado como mecanismo de equilíbrio político. Ao mesmo tempo, serve para diluir responsabilidades e evitar a concentração excessiva de poder fora da figura imperial.
Nas esferas regionais, cada nação é governada por um Presidente indicado pelo Imperador, que permanece no cargo pelo tempo que o Império julgar necessário. As cidades, por sua vez, possuem prefeitos e conselhos municipais eleitos localmente. Essas eleições ocorrem periodicamente, a cada quatro ou seis anos, dependendo da região.
A coexistência entre nomeações imperiais e eleições restritas cria a ilusão de participação democrática, ao mesmo tempo em que mantém o controle efetivo nas mãos do centro.
Um detalhe incompreendido por muitos cidadãos é o fato de que o título de Imperador não é eterno e muito menos hereditário, mesmo que isso ocorra na maioria dos casos. Assim que assume o trono, o novo Imperador deve escolher seu sucessor. Este pode ou não ser um filho primogênito ou um familiar próximo. A única exigência é que seja um membro dos povos livres.
Ainda assim, por decisão unânime, o Conselho Imperial pode recusar o sucessor depois de uma sabatina, pensando no bem comum da Coalizão. O poder dos conselheiros é tão grande que eles podem, até mesmo, destituir um Imperador. Mesmo sendo este um evento raro, já aconteceu três vezes na história recente de Terra Brasilis.
Os Princípios Imperiais
Apesar de sua complexidade institucional, todo o sistema imperial repousava sobre um conjunto reduzido e imutável de princípios: as Dez Regras Magnas. Diferentemente da Constituição, sujeita a revisões e emendas, as Regras Magnas são absolutas.
Nem mesmo o Imperador possui autoridade para alterá-las. Sua violação implica destituição imediata e execução sumária, estendendo-se a familiares e cúmplices. Isso ocorreu apenas uma vez na história da Coalizão.
Essas regras afirmam a eternidade e a inviolabilidade do Império, legitimam o poder imperial como de origem divina e consagram o Degredo como instrumento legítimo de segregação. Ao declarar que nenhuma raça submetida ao Degredo poderia emergir dele, as Regras Magnas transformaram exclusões políticas em verdades metafísicas. Dessa forma, a lei deixou de ser apenas um contrato social e passou a operar como dogma.
O juramento coletivo que encerra as Regras Magnas, proferido em nome dos Povos Livres e diante de Deus, sela essa transformação. O Império não se apresenta apenas como governo, mas como fato histórico inevitável. Questioná-lo não é visto apenas como um crime político, mas como um ato de profunda heresia.
Assim, toda a estrutura política de Terra Brasilis, converte-se em um verdadeiro Leviatã, um sistema coeso, eficiente e que, a despeito de todas as críticas, foi capaz de garantir estabilidade por séculos. Contudo, essa estabilidade foi construída sobre exclusões profundas, silêncios forçados e violência legitimada.
Compreender essa arquitetura de poder é essencial para entender o presente do continente. Pois, enquanto o Império proclama sua eternidade, as fissuras deixadas pelo Degredo, pelas hierarquias raciais e pela centralização forçada continuam a se expandir sob a superfície da ordem, lembrando que nenhuma estrutura política, por mais rígida que se declare, está imune ao desgaste do tempo e da memória.
As 10 Regras Magnas
- O Império de Terra Brasilis é Eterno e Inexpugnável;
- O Império de Terra Brasilis foi criado sob a permissão de Deus e não pode ser descriado por nenhuma força existente ou que venha a existir;
- O Imperador é o Líder Supremo do Império;
- O Imperador está sujeito aos termos destas Regras Magnas;
- O Alto Conselho Imperial pode destituir um Imperador, pensando no bem comum do Império;
- Todos as nações estão sob a regência do Império;
- O Degredo é uma forma legítima de segregação;
- Nenhuma raça submetida ao Degredo poderá emergir dele;
- O Degredo é uma decisão divina;
- A última instância da Lei é o Imperador.
NÓS, OS POVOS LIVRES DE TERRA BRASILIS, A FIM DE FORMAR UMA UNIÃO PERFEITA, ESTABELECER A JUSTIÇA E PROVER A DEFESA COMUM, CONCORDAMOS COM TODOS ESTES TERMOS E JURAMOS NUNCA ATENTAR CONTRA ALGUM DELES, SOB NENHUMA CIRCUNSTÂNCIA, DIANTE DE DEUS.
