Entre todas as criações artificiais registradas pela Academia Aruanan, poucas suscitam debates tão persistentes quanto os golens. Não por sua raridade, que é relativa, mas por sua natureza ontológica: são corpos elementais animados por força mágica, desprovidos de origem biológica, sem linhagem, sem alma identificável, mas dotados de movimento, função e, em alguns casos, capacidade rudimentar de decisão.
Defini-los exige precisão. Um golem não é um autômato mecânico, tampouco um construto arcano simples. Ele é uma estrutura material (pedra, madeira, metal, água, fumaça ou substância mais exótica) cuja coesão é mantida por um núcleo mágico ativo. Este núcleo pode ser um feitiço estabilizado, um selo arcano permanente ou um entrelaçamento de Molda conduzido por alguém capaz de manipular a matéria em escala estrutural.
O consenso entre os estudiosos é que golens não possuem consciência. O que observamos como resposta a estímulos, adaptação ou escolha nada mais seria do que protocolos arcanos previamente inscritos em sua matriz energética. Ainda assim, o fato de reagirem ao ambiente de forma aparentemente contextualizada alimenta dúvidas, especialmente entre etnomagos como Mairah Yangapó, que sustentam que toda matéria animada, ainda que artificialmente, carrega vestígios de agência.
Não partilho integralmente dessa tese. Mas tampouco a descarto.

Origem técnica e sistemas mágicos envolvidos
A criação de um golem envolve, obrigatoriamente, pelo menos um dos cinco sistemas mágicos reconhecidos em Terra Brasilis: Encanto, Molda, Feitiçaria, Magia Arcana ou Necromancia. Na prática, os dois últimos são os mais recorrentes. Ainda assim, a maior parte dos golens está vinculada à Magia Arcana formal, ensinada nas academias e regulamentada pelo Império.
A Molda permite manipular diretamente a estrutura da matéria. Um moldador extraordinariamente poderoso pode, em teoria, reorganizar minerais ou fibras vegetais e manter sua coesão por tempo suficiente para inserir um comando energético básico. Contudo, tais casos são raros.
O procedimento padrão envolve três etapas:
- Preparação do corpo material: escultura ou montagem da estrutura física.
- Inscrição do selo de comando: runas, circuitos arcanos ou matrizes de invocação.
- Infusão energética: ativação por meio de foco arcano estabilizado.
É nessa terceira etapa que reside o perigo. Um selo mal calibrado pode gerar comportamento errático, agressividade involuntária ou colapso estrutural explosivo.
A cidade de Sorocaba, em Rio de Prata, abriga atualmente o maior centro de manufatura controlada de golens metálicos do Império, voltados à defesa institucional. Não é coincidência que a cidade seja também o núcleo bélico-industrial da nação.
Classificação por material
A taxonomia contemporânea organiza os golens segundo o material-base predominante.
Golens de Pedra
São os mais antigos e estáveis. Possuem grande durabilidade, resistência física elevada e baixo custo de manutenção. São amplamente utilizados em construção pesada, especialmente em Longo Vale Longo Vale, onde fábricas operam em regime contínuo.
Golens de Madeira
Mais leves e ágeis, porém vulneráveis a fogo e umidade excessiva. Costumam ser empregados em regiões agrícolas de Belamata Belamata, onde auxiliam no transporte e na colheita de larga escala.
Golens Metálicos
Os mais valorizados estrategicamente. Produzidos com ligas especiais, por vezes contendo traços de tätallon, são utilizados como guardas de instalações sensíveis e como força de contenção em rebeliões urbanas.
Golens Elementais Não Sólidos
Mais instáveis, porém versáteis. Incluem formas de água, fumaça e fogo. São raros fora de ambientes altamente controlados, como laboratórios de Campinas das Torres Campinas das Torres.
O caso do Golem de Urânio-235
O episódio mais controverso dos últimos anos ocorreu em uma usina experimental nas proximidades de Campinas das Torres. Um consórcio arcano-industrial autorizou a criação de um golem constituído majoritariamente de urânio-235, com o objetivo de estabilizar reações energéticas e aumentar a eficiência de produção.
A justificativa técnica era sólida, tendo em vista que a matéria radioativa, quando confinada por um selo arcano contínuo, poderia servir como núcleo energético autoalimentado. O problema residia na hipótese implícita de que o selo jamais falharia.
O golem operou por três anos com desempenho acima do esperado. Contudo, relatórios internos indicam que seu comportamento tornou-se progressivamente errático. Não agressivo, mas autônomo. Alterava ligeiramente seu posicionamento dentro da câmara de contenção, como se buscasse equilíbrio próprio.
A versão oficial sustenta que o experimento foi desativado por precaução, mas documentos não publicados sugerem que a estrutura precisou ser desmantelada às pressas após variações energéticas inexplicáveis. Ainda não sabemos como essa história vai terminar.
Golens e o Império
O Império Brasiliano classifica golens como instrumentos mágicos. Não são reconhecidos como raça, nem como categoria jurídica autônoma. Portanto, não se enquadram em Povos Livres, Peregrinos ou Degredados. E essa ausência de estatuto civil os torna extremamente úteis.
Em Porto Rubro, cidade militarizada de Amazara, golens metálicos patrulham áreas onde a presença humana é considerada vulnerável. Em Forjafirme, versões adaptadas auxiliam na contenção de colapsos subterrâneos.
Eles Não reivindicam salário, não protestam e não se insurgem. Desta maneira, a comparação com os Degredados é inevitável, ainda que oficialmente repudiada.
E isso gera uma questão ainda mais importante: golens são realmente destituídos de consciência? Testes realizados pela Academia Aruanan apontam ausência de atividade anímica detectável por necromancia diagnóstica. Contudo, é sabido que alguns necromentes já inseriram ecos de alma em golens.
Alguns casos relatados por operários de Longo Vale incluem golens que interromperam tarefas ao detectar trabalhadores humanos em risco, mesmo quando tal salvaguarda não constava no selo original. Isso é um erro de programação, uma interferência externa ou uma manifestação mínima de auto-organização? Ainda não possuímos uma resposta definitiva.
O fato é que, enquanto o Império se preocupa com estabilidade política e controle de raças reconhecidas, a expansão silenciosa do uso de golens passa quase despercebida. Se não são vivos, tudo é permitido. Se são vivos, ainda que de forma embrionária, estamos diante de uma nova categoria de subjugação.
A história de Terra Brasilis demonstra que o poder tende a explorar aquilo que não reconhece como igual. Orcades foram exterminados, curupiras foram convertidos em degredados e povos inteiros foram reduzidos à condição de ameaça.
Os golens, por ora, são considerados objetos. Mas objetos que se movem, que obedecem e que, ocasionalmente, parecem hesitar. E hesitação é um fenômeno difícil de explicar em algo absolutamente inerte.
Talvez o verdadeiro risco não esteja na força esmagadora de um colosso metálico nem na instabilidade de um núcleo radioativo. Talvez resida no momento em que um construto, criado para executar, passe a interpretar. Neste dia, o Império terá criado algo que não se encaixa em suas categorias legais e que não aceitará facilmente ser chamado de ferramenta.
