Como naturalista de campo, aprendi que a natureza possui uma assinatura bem específica. Uma árvore agno, por mais estranha que pareça ao senso comum, possui uma lógica celular, um ritmo de crescimento, uma digital biológica que, embora complexa, faz sentido em seu ecossistema. Mas as gorgons são diferentes, uma vez que elas não possuem assinatura… apenas cicatrizes.
Em minhas andanças pelas periferias úmidas e pelos subterrâneos de São Paulo, a única cidade de Terra Brasilis onde essas criaturas se manifestam, percebi que não estamos catalogando uma raça propriamente dita, mas sim um fenômeno de distorção vital.
A biologia imperial, muitas vezes influenciada pela soberba dos Altos Elfos, apressou-se em submetê-las ao Degredo, lançando-as no mesmo abismo jurídico que orcades e curupiras. Contudo, recuso-me a concordar com essa decisão, especialmente considerando alguns fatos que constatei analisando a estranha constituição das gorgons.
A anomalia do gênero único
O primeiro fato que salta aos olhos de qualquer biólogo minimamente rigoroso é a absoluta ausência de exemplares machos. Na história de Terra Brasilis, mesmo raças raras ou isoladas, como os Elfos das Profundezas, possuem uma estrutura reprodutiva identificável. Com as gorgons, porém, esse registro não existe. Todas as espécimes capturadas, documentadas ou autopsiadas pela Academia Aruanan eram, sem exceção, fêmeas.
Isso nos leva a uma encruzilhada científica. Se não há machos, como a espécie se propaga? Não há evidências de partenogênese ou de hibridismo com outras raças. Essa lacuna biológica sustenta a teoria mais sombria que circula nos boticários de Rio de Prata: a de que as gorgons não nascem, mas são produzidas.
Muitos de meus colegas sugerem que se tratam de elfas ou humanas submetidas a uma maldição de alta complexidade ou a um experimento de Magia Necromancial que deu terrivelmente errado. O fato de serem invariavelmente fêmeas sugere uma punição de gênero ou uma incompatibilidade biológica do feitiço com o organismo masculino.

A geografia do confinamento
Outra questão também intriga. Terra Brasilis é vasta, indo das areias inóspitas de Brancaflor às florestas densas de Amazara. No entanto, as gorgons são prisioneiras de um único perímetro, especificamente urbano: a Grande São Paulo. É um caso de isolamento geográfico sem paralelos.
Por que uma “raça” ignoraria a abundância de presas nas matas de Belamata ou o isolamento das Cordilheiras em Forjafirme para se esconder nos túneis de metrô e nos prédios abandonados da maior metrópole do Império?
A resposta pode estar em alguma egrégora mágica específica dessa região. Ou talvez, São Paulo funcione como uma jaula invisível. Se as gorgons são o resultado de uma violação imoral ou de um crime arcano, é possível que a “âncora” de sua maldição esteja enterrada sob o solo da Praça da Sé, onde são especialmente ativas. Minhas pesquisas mostram que a própria biologia dessas criaturas parece definhar quando cruzam os limites da nação de Rio de Prata.
O caos cefálico
Ao nos referirmos a aparência das gorgons, o elemento mais aterrorizante e, paradoxalmente, o que mais atesta contra a classificação de tais seres como uma raça é a falta de homogeneidade em seus “cabelos vivos”. Em uma espécie natural, esperamos ver padrões, como ocorre em todos os seres vivos, a exemplo dos naghars, que possuem escamas consistentes, ou dos sacires, que possuem sempre orelhas pontudas e pele escura. As gorgons, contudo, apresentam uma anarquia morfológica.
Já vi relatórios da Academia Aruanan descrevendo espécimes cujas cabeças eram coroadas por serpentes peçonhentas, mas também encontrei registros de criaturas com tentáculos cefálicos semelhantes aos dos akuras, ou, o que é mais perturbador, pequenos braços rugosos e patas de aracnídeos brotando do couro cabeludo. Essa inconsistência é o maior argumento contra um processo evolutivo eficiente. A natureza não joga dados dessa maneira, mas a magia corrompida, sim.
Vale destacar que esses apêndices não são apenas decorativos. Eles possuem função de ataque e parecem ter uma vontade própria, muitas vezes agindo por reflexo antes mesmo que a hospedeira tome consciência do perigo. Isso cria uma existência de constante agonia e isolamento.
Dessa forma, mesmo entre os Degredados, as gorgons são párias. Orcades e sátiros, embora perseguidos, possuem comunidades e rituais. As gorgons possuem apenas o silêncio das sombras.
O destino das capturadas
O Império Brasiliano orgulha-se de sua modernidade e de sua “pureza”, mas a verdade por trás das portas da Academia Aruanan é sangrenta. Devido ao seu status de Degredadas e à sua natureza violenta ( que muitas vezes me soa como uma resposta ao medo e à caça constante), as gorgons capturadas não possuem qualquer proteção legal. Elas tornam-se, imediatamente, propriedade do Estado.
E é de conhecimento comum entre nós, naturalistas, que essas mulheres são usadas como cobaias em pesquisas científicas e experimentos de Magia Arcana. O Império busca entender o segredo de sua regeneração tecidual ou a fonte da energia que move seus cabelos vivos.
Vi fotos de dissecações que me tiraram o sono por semanas. O olhar de uma gorgon no momento da morte não é o de um monstro, mas o de alguém que foi traído pela própria carne.
O tratamento dispensado a elas é o ápice da hipocrisia imperial. Enquanto o Imperador e o Alto Conselho pregam a união perfeita dos Povos Livres, permitem que seres de inteligência avançada e consciência clara sejam esquartejados em nome de um progresso arcano que só beneficia a elite élfica.
Monstro ou mártir?
Ao final de minhas observações, a pergunta permanece: o que são as gorgons? Se forem uma raça, são a mais trágica de Terra Brasilis. Se forem uma maldição, são a prova de que o poder mágico no Império é usado para fins de crueldade indescritível.
As gorgons são o espelho quebrado de nosso continente. Elas refletem a desordem, a mutação constante e a violência de uma terra que cresce sobre os corpos dos esquecidos. Enquanto a Lei do Degredo continuar a ser a ferramenta de controle Imperial, continuaremos a chamar de “monstros” aquelas que, talvez, sejam apenas as vítimas mais visíveis de um sistema que não tolera a divergência biológica.
Por isso, cuidado ao caminhar pelos becos úmidos de Rio de Prata, nobre viajante. O som que você ouve pode não ser o de serpentes rastejando, mas o choro de alguém que um dia foi humana ou elfa, e hoje é apenas um objeto de estudo condenado ao degredo eterno.
