A história de Terra Brasilis antecede em muitos milênios qualquer tentativa sistemática de registro. Durante grande parte de sua existência, os povos que aqui habitavam transmitiram suas narrativas por meio da oralidade, de rituais, de marcas na paisagem e de pactos simbólicos com a terra.
Esses relatos primitivos, fragmentários e muitas vezes contraditórios, tornaram-se praticamente irrecuperáveis após sucessivas guerras, migrações forçadas e apagamentos deliberados. Por essa razão, qualquer tentativa de reconstrução total do passado continental é, inevitavelmente, incompleta.
O que se apresenta a seguir, portanto, não é uma história absoluta de Terra Brasilis, mas um recorte: um apanhado dos eventos mais recentes e documentáveis, aqueles que, direta ou indiretamente, conduziram à formação da Coalizão e ao posterior surgimento do Império Brasiliano. Trata-se de uma narrativa marcada por disputas de poder, alianças instáveis e decisões que continuam a reverberar no presente.
O primeiro ponto a se saber é que Terra Brasilis é um dos cinco continentes espalhados pelo planeta Terra. Em se tratando de extensão territorial, perde apenas para a Ásia. Ainda assim, pela sua importância econômica e cultural, é tido como o maior de todos os continentes.
Os registros arqueológicos mais confiáveis indicam que humanos, kaiporas e curupiras já caminhavam por essas terras há pelo menos vinte mil anos. Vindos de diferentes rotas migratórias, possivelmente da África, da Polinésia e de regiões hoje submersas, esses povos ocuparam praticamente toda a extensão do continente. Formaram desde pequenas aldeias seminômades até centros urbanos complexos, alguns deles localizados em regiões que hoje parecem inóspitas, como o coração da floresta amazônica.
Durante muitas gerações, o contato entre essas raças foi predominantemente pacífico. Relações comerciais se estabeleceram, tecnologias rudimentares foram compartilhadas e surgiram os primeiros híbridos inter-raciais. Com o tempo, no entanto, essa miscigenação passou a ser vista como um sinal de enfraquecimento cultural e biológico. Humanos, curupiras e kaiporas passaram a condenar tais uniões, inaugurando uma lógica de pureza identitária que marcaria profundamente os séculos seguintes.
A Primeira Invasão Orcade
Esse equilíbrio frágil foi rompido de maneira definitiva com a chegada dos orcades, evento que os historiadores convencionaram chamar de Invasões Orcades. A magnitude desse choque foi tamanha que a história de Terra Brasilis passou a ser dividida em dois grandes períodos: antes e depois da invasão.
A período da chegada desses povos invasores também é catalogada como o meio exato entre a História Antiga e a História Contemporânea. O calendário em uso até hoje no continente tem início justamente nesse momento de ruptura.
Os orcades, também chamados de orcs em algumas regiões, são humanoides de grande inteligência e organização militar, mas com uma forte inclinação à guerra e ao conflito. Muitos afirmam que essa forte tendencia para a violência é motivada pelos costumes tribais aos quais estão submetidos, mas este também pode ser visto como um pensamento etnocentrista e preconceituoso.
O fato é que, ainda que existam debates contemporâneos sobre o caráter cultural ou biológico de sua inclinação à guerra, o impacto local foi inequívoco. Quando eles aportaram em Terra Brasilis com milhares de soldados fortemente armados, surpreenderam as populações nativas, que não possuíam meios técnicos e nem organização militar capazes de deter o avanço inicial. Cidades foram saqueadas, povos escravizados e recursos naturais explorados em escala inédita, gerando a primeira guerra de grandes proporções nestas terras.

A resposta veio de uma aliança improvável. Humanos, curupiras e kaiporas, até então separados por desconfianças crescentes, formaram um exército conjunto. O conflito que se seguiu durou anos, devastou regiões inteiras e custou milhares de vidas. Apenas em 1057 do Tempo Comum as forças nativas conquistaram sua primeira vitória significativa, utilizando armas tomadas dos próprios orcades.
Três anos depois, em 1060, os invasores foram oficialmente expulsos do continente.
Essa vitória, no entanto, não foi absoluta. Em vez de retornar aos seus continentes de origem, grupos orcades migraram para o extremo norte de Terra Brasilis, região temida até mesmo pelos povos nativos. Ali fundaram assentamentos próprios e permaneceram relativamente isolados. Seguiu-se então um longo período de paz, no qual as antigas alianças se dissolveram e cada povo voltou-se para seus próprios interesses.
Humanos expandiram-se rumo ao sul e consolidaram grandes comunidades agrícolas e comerciais. Curupiras permaneceram majoritariamente nas zonas costeiras, enquanto kaiporas se aprofundaram nas florestas intocadas, onde fizeram contato com os sacires. Esse afastamento gradual enfraqueceu os laços políticos e militares entre as raças, criando um cenário propício para novos conflitos.
A Segunda Invasão Orcade
A segunda invasão orcade ocorreu mais de um século depois e foi incomparavelmente mais brutal. Dessa vez, milhões de soldados, tecnologia avançada e máquinas de guerra desembarcaram simultaneamente pelo norte do continente e pelo mar. A volta era prevista por algumas comunidades, mas isso não impediu que os nativos fossem pegos de surpresa.
As sociedades nativas, desacostumadas à guerra e sem um exército organizado, foram pegas de surpresa. Seguiu-se um período de massacres sistemáticos, destruição de cidades inteiras e escravização em massa.
Foi nesse contexto que emergiu a figura de Amak Tulla, senhor de uma pequena aldeia de curupiras que conseguiu unificar diversas tribos sob uma única bandeira. Suas vitórias iniciais inspiraram humanos e kaiporas a fazerem o mesmo. Isso fez com que algumas forças se equilibrassem e os povos voltassem a reagir sistemáticamente.

Em 1209, Amak Tulla convocou uma grande conferência que reuniu representantes de homens, curupiras, kaiporas e sacires. Dessa assembleia nasceu a Anan’duah, mais tarde conhecida simplesmente como a Coalizão.
Juntando todos os principais povos sob uma única liderança, a Coalizão conseguiu conter o avanço orcade, ainda que não tivesse forças para impor uma vitória decisiva. O conflito se arrastou por décadas, resultando em um equilíbrio instável marcado por destruição constante e sofrimento generalizado.
Nenhum dos lados tinha poder o suficiente para vencer, mas também não ousava desistir. Porém, com o tempo e o desgaste logístico dos invasores, as forças nativas conseguiram recuperar território suficiente para forçar um acordo. Os orcades recuaram novamente, mas não foram completamente expulsos.
Ainda que muitos fossem contra essa permissão, um acordo foi assinado e algumas vilas de orcades foram autorizadas pela Coalizão, inaugurando uma curiosa parceria. Estabeleceu-se uma vantajosa aliança comercial, onde os orcades traziam produtos e especiarias da Europa e eram pagos com ouro e recursos naturais oriundos do continente.
A Grande Traição
Por mais de 130 anos, esta aliança prevaleceu e triunfou sobre as diferenças destes povos. Mas tudo mudou em 1347, quando essa aliança foi abruptamente rompida, no episódio que ficaria conhecido como o Ano da Grande Traição.
Liderados pelo poderoso mago Arcthrus Endülliun e amparados por uma ideologia religiosa expansionista, os orcades lançaram uma nova ofensiva. Embora não fizesse parte daquele povo, Arcthrus era o principal representante de um movimento religioso conhecido como Santo Calvário, que pregava que aquelas terras pertenciam aos orcades por direito divino.
Auxiliados por um poder arcano avassalador e tecnologia superior desconhecida, os corcades subjugaram rapidamente o continente, rebatizando-o como Tellen’Zakar, o Reino Prometido. A ocupação foi reconhecida por potências estrangeiras, mas jamais plenamente aceita pelos povos nativos.
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A resistência persistiu de forma fragmentada até 1498, quando mais um evento inesperado alterou o curso da história: a chegada secreta de uma comitiva de Altos Elfos. Em negociação direta com Zirka Tulla, herdeiro de Amak III e líder do que restara da Coalizão, os elfos ofereceram soldados, armas e tecnologia em troca de terras e posição de destaque em um futuro governo centralizado.
- Os Altos Elfos são um povo semelhante aos elfos, mas com diferenças sutis. Para saber mais sobre eles, clique aqui.
O acordo foi aceito por falta de alternativas. Em poucos anos, centenas de milhares de elfos chegaram a Terra Brasilis pelo mar e pelos céus, em máquinas voadores nunca vistas naquelas terras. Pegos de supresa, os orcades não tiveram tempo de organizar uma reação efetiva. As batalhas que se seguiram foram rápidas e devastadoras.
Em 1508, os orcades foram definitivamente expulsos e a Coalizão foi restabelecida, agora sob forte influência élfica. O continente recebeu oficialmente o nome de Terra Brasilis e foi dividido em nove grandes nações. Duas delas foram entregues aos elfos, como parte do acordo.
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