Os elfos constituem um dos povos mais estudados e, paradoxalmente, menos entendidos de Terra Brasilis. Do ponto de vista biológico e histórico, são oficialmente reconhecidos como uma única raça. Contudo, a tradição acadêmica costuma dividi-los em três grandes grupos, cujas diferenças são tão profundas que frequentemente suscitam a hipótese de se tratarem de linhagens distintas: os Altos Elfos, os Elfos dos Bosques e os Elfos das Profundezas. Até o momento, porém, nenhum estudo conclusivo foi capaz de comprovar uma separação racial formal entre eles.
Em termos gerais, a distinção imediata entre um elfo e um humano reside nas orelhas excessivamente longas e pontiagudas, traço universal entre as três variações. Fora isso, a morfologia é surpreendentemente próxima da humana, sobretudo entre os elfos dos bosques, o que contribuiu, ao longo da história, para inúmeros equívocos classificatórios e para uma certa banalização da presença élfica nos centros urbanos.
Há, contudo, exceções marcantes. Uma parcela rara da população élfica apresenta colorações de pele incomuns, como tons de azul profundo, verde musgo ou mesmo um negro absoluto, quase opaco à luz. Esses indivíduos, embora escassos, são visíveis em grandes cidades do Império e despertam fascínio imediato, sobretudo entre humanos.
A tais elfos costuma-se atribuir um “aspecto divino”, percepção que os transforma em figuras públicas involuntárias, frequentemente alçadas à condição de celebridades, símbolos vivos de exotismo e distinção.
Entre as três grandes divisões, os Altos Elfos são os que mais se afastam fisicamente do padrão humano. Paradoxalmente, também são os mais homogêneos entre si. Sua estatura impressiona: não é incomum que ultrapassem dois metros e meio de altura.
Possuem corpos longilíneos, traços faciais severos e peles muito pálidas, por vezes acinzentadas, até mesmo naqueles de tez escura. Seus cabelos variam quase exclusivamente entre o loiro muito claro e o negro profundo, e há um forte tabu cultural contra tingimentos artificiais (algo comum entre os Elfos dos Bosques), vistos como sinais de vaidade vulgar ou desvio identitário.
No que diz respeito à longevidade, é fundamental desfazer um equívoco recorrente. Apenas os Altos Elfos são, de fato, biologicamente imortais. As demais variações não compartilham dessa condição, embora apresentem uma expectativa de vida extremamente longa, frequentemente ultrapassando vários séculos.
Doenças são raras entre eles, e o envelhecimento ocorre de forma lenta e pouco perceptível. Essa longevidade prolongada produziu efeitos culturais profundos, sobretudo entre os elfos dos bosques, que desenvolveram uma relação intensa, por vezes hedonista, com a própria existência. Muitos estudiosos descrevem esse grupo como marcado pelo excesso, pela busca constante de prazer e pela vaidade, como se desafiar os limites da vida fosse uma resposta ao tédio de uma existência demasiadamente extensa.
Sobre as cinco grandes famílias
Apesar da presença elfica disseminada por todo o continente, o poder político e econômico dos Altos Elfos permanece rigidamente concentrado. Não se conhece o número exato de indivíduos desse grupo vivendo em Terra Brasilis, mas é consenso que cinco grandes famílias exercem controle absoluto sobre as decisões internas, os rumos econômicos e a projeção externa desse povo. Essas famílias reúnem os elfos mais antigos, mais ricos e mais influentes de que se tem registro. Alguns de seus membros atravessaram eras inteiras da história continental, testemunhando governos nascerem e ruírem.
A mais antiga e prestigiosa dessas linhagens é a Família Tarddhasi. Seu nome é conhecido dentro e fora de Terra Brasilis, associado tanto à tradição quanto à dominação. Esse prestígio, entretanto, é acompanhado por um ódio igualmente disseminado entre povos não élficos, em especial os anões, cujas relações históricas com os Tarddhasi são marcadas por conflitos, humilhações diplomáticas e disputas territoriais veladas.
A família é regida pelo patriarca Caedhro Tarddhasi, que ultrapassa os oito mil anos de idade e é amplamente considerado o elfo mais antigo do continente. De seus numerosos descendentes — vinte e três filhos e apenas uma filha — Gabriella ocupa um lugar singular. O próprio Caedhro a descreve como sua maior maldição, afirmação que alimenta especulações sobre disputas internas e transgressões jamais registradas oficialmente.
Logo abaixo na hierarquia élfica encontra-se a Família Iherdana, governada pela matriarca Anna’Kisank Iherdana e por sua primogênita, Aredhell. Diferentemente dos Tarddhasi, cuja influência se ancora na antiguidade e na tradição, os Iherdana construíram seu poder sobre a indústria do entretenimento.
Controlam estúdios cinematográficos, parques temáticos e extensas redes de mídia digital voltadas ao público jovem. Seus principais consumidores são humanos, mas há um esforço deliberado em capturar a atenção dos Elfos dos Bosques e dos kerins, moldando gostos, narrativas e símbolos culturais em escala continental.
A Família Nondill concentra seus interesses no setor da informação. Proprietária dos maiores veículos de imprensa de Terra Brasilis e de diversos outros fora do continente, exerce um poder silencioso, mas profundo, sobre a construção da realidade pública.
O patriarca Eduin Nondill governa os negócios com mão firme, delegando a seus muitos filhos a manutenção do império midiático em viagens constantes. Curiosamente, ele próprio raramente deixa sua residência, onde vive recluso com o primogênito, Eloah Nondill. Sobre este último pairam rumores persistentes: acredita-se que ele guarde um segredo capaz de desestabilizar não apenas a família, mas toda a estrutura política dos Altos Elfos.
A mais reservada das cinco linhagens é a Família Talannata, liderada pela matriarca Edriella Talannata. Oficialmente, seus negócios concentram-se na indústria farmacêutica, com forte presença na pesquisa alquímica e medicinal. Extraoficialmente, muitos acreditam que essa fachada encobre atividades ilícitas de grande escala, incluindo tráfico de drogas proibidas, armamentos e criaturas escravizadas, sobretudo curupiras.
Ainda assim, a história registra um feito inegável: durante a Grande Praga, pandemia que dizimou cerca de um terço da população de Terra Brasilis, foram os Talannata os responsáveis pelo desenvolvimento da primeira vacina eficaz, fato que os garantiu proteção política duradoura.
Por fim, a Família Amarathar ocupa uma posição ambígua. Embora ainda detenha influência significativa, vem sendo progressivamente desmoralizada pelas demais casas. A causa principal foi a decisão da matriarca Sohora Amarathar de permitir que sua filha, Lisbeth, se casasse com Henry Walker III, atual Imperador de Terra Brasilis. A união interracial é vista como inaceitável entre os Altos Elfos, mesmo quando envolve um humano de alta nobreza.
Ainda assim, o casamento revelou-se uma manobra política necessária: à época, a família enfrentava uma crise financeira severa, agravada por sucessivos escândalos políticos. Para muitos observadores, a sobrevivência da Amarathar teve um custo simbólico alto demais e seu prestígio jamais se recuperou plenamente.
